“Porque eu sinto, sinto com todas as entranhas do meu corpo, sinto com todas as forças da minha alma. E, por mais que eu pareça fria, e sem sentimentos, eu sinto. Acho que até devo sentir demais, demais para uma pessoa só. Sendo por isso frequente eu chorar, desabar no silêncio da noite deitada ou sentada na minha cama. Agarro-me às minhas pernas, e choro. Choro simplesmente. Por vezes, penso que a minha alma vai junto. Eu acabo gritando. Grito com a minha alma, e percebo, finalmente, que a minha alma só buscava aquele alívio. Alívio esse que só dura uma noite. Porque no dia seguinte, na manhã seguinte, aquela agonia e tristeza e dor e melancolia está de novo presa ao meu coração, à minha alma, ao meu corpo. Parece uma praga para falar a verdade. Uma praga de que não me consigo ver livre.
Você pode olhar para mim agora e ver um sorriso rasgado na minha face, mas no fundo esse sorriso não passa de uma máscara de alguém que já está habituada a sofrer em silêncio. Se calhar, por isso me acham fria e sem sentimentos. Porém é preciso me desvendar e me conhecer de verdade para entender isso, que eu disfarço minha dor. Ou tento. Tento porque há pessoas que me conseguem ver através de um simples olhar. Conseguem enxergar através de uma palavra mal dita, ou duma palavra não dita. Vêm até o que eu não consigo entender ou enxergar. Penso que até a própria noite já me desvendou, e já sabe quando eu vou desabar na sua companhia. Ela viu minhas crises, e irá sempre ver enquanto eu sofrer. Ela é a única real companhia para os meus colapsos, como Deus. Ambos me fortalecem, e me ajudam. Contudo, só consigo ficar bem por uma noite. Acho que nunca vou conseguir ser consertada. Vou ficar partida para sempre. Tal e qual uma boneca de porcelana no sótão.”
Redbird.