“Hoje fazias oitenta e seis anos. E dói, dói dizer “fazias” porque eu cresci contigo, eu tive quinze anos, onze meses e catorze dias contigo, e viver sem ti é mais complicado do que eu imaginei. Há quem diga para ocupar-me, para assim não pensar, mas nem sempre é fácil. Ocupar-me eu até me ocupo, mas as memórias, tudo, estão ali na minha mente. E flutuam por lá, enquanto me aparecem coisas ou dizem simplesmente uma palavra. Há também quem diga para esquecer, mas como podem dizer sequer isso? Tu fazias parte da minha vida, e fazes mesmo não estando cá. Ontem fui ao teu túmulo, e doeu olhar para a data de nascimento, pois é hoje. Tive mesmo para chorar, para me lagar em lágrimas ali mesmo. Agarrada à tua foto, e à tua nova casa. Mas de certa forma, tu evitas-te isso. É complicado ver o avô choramingar por ser o dia que é. Como também é complicado lembrar-me que não vou ouvir a tua voz ao telefone a agradecer pelo feliz aniversário e a choramingar. E com isso vem também a memória do dia em que partiste, aquela chamada do pai, aquela dor a percorrer o meu corpo como se fosse um tumor maligno. A imagem de ver-te deitada no caixão ainda hoje me percorre os olhos. E a mesma dor latejando pelo meu corpo, e as lágrimas pesadas a caírem-me pelo rosto abaixo como se não houvesse amanhã. Tenho imensas saudades tuas, apenas isso ou tudo isso. E espero que cuides de nós, como sempre o fizeste.”
Feliz aniversário, Avó.
  1. imersivel reblogou isto de imersivel
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