“Por meses que não me atrevi a escrever-te. Aliás, há meses que não escrevo. Não sei, mas começo a ter medo do meu próprio interior. Parece que algo está a bloquear tudo o que sinto, e assim tenho um vazio no meu peito que me sufoca. É estranho escrever-te, contar-te isto, apesar de saber que estás a observar-me constantemente. Nunca disse estas coisas a ninguém, muito menos a ti e ao resto da família. Todos pensam que os jovens são simplesmente jovens, não têm problemas e bláblá, mas não é bem assim. Muitos sofrem mais que muitos adultos alguma vez sofreram. Enfim, não vale a pena estar aqui a catalogar as diversas merdas que acontecem mas que estão todos tão cegos com ideais tão obscenos que nem enxergam a verdadeira realidade que está à frente deles. O ponto a que quero chegar é que eu por mais fria que fosse e seja, eu sinto. Sou inteiramente humana. E, por isso sangrei, sangro e sangrarei. Sou real, de carne e osso. Sinto, e demais! É curioso, quando me pedem lá em casa para meter a mesa, sabes o que acontece sempre? Em vez de pegar só em quatro pratos e quatro de tudo, pego sempre cinco porque estava tão habituada a ajudar-te que esqueço-me que já não estás aqui fisicamente.
Há momentos que duvido que realmente sofram pela tua ausência (sabes a quem me refiro), e por mais que esteja a pecar por dizer que nunca irei perdoá-los, só digo a verdade. Não se diz aquilo a alguém que sofreu mais por uma mãe em metade dos anos que ele tem. Não se faz, e não entendo como se pode culpar alguém que morreu pelas atitudes que não são dela! Isso revolta-me, revolta-me e não é pouco. Eu estou presa na tua morte caramba, e esta gente ainda diz estas coisas a um ser como tu? Desonram a tua memória, e a minha inteligência. Desculpa, é o teu aniversário e eu aqui a falar do que não devo. Desculpa. Deveria ouvir-te a dizer obrigada pelos parabéns através do telemóvel, saber e sentir que estás bem apesar dos 87 anos. Porém não irei ouvir-te, ouvir o teu choro, saber e sentir que estás bem. Não estás aqui. Dói tanto, avó. Não sei descrever, é um sentimento horrível. É como saber que não me estás a ver a ir para o último ano do secundário. Apesar de tudo eu consegui, estou a conseguir. E só queria ver a tua cara e o teu sorriso, ouvir-te e saber que ainda estarias naquela poltrona ao voltar no dia a seguir.
Vou sentir a tua falta para sempre.”
Parabéns pelos 87 anos, avó. 01/08/2014
  1. verbos reblogou isto de imersivel
  2. imersivel reblogou isto de imersivel
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