“Vó, mais um ano se passou e já é dia mundial dos avós de novo. Meu coração está partido, por não estares aqui, por ela estar tão mal que me rasga a alma não puder ficar com o sofrimento dela. A minha vida está uma bagunça, para variar, e eu choro quando penso como o tempo passa e já não te posso mais abraçar. As saudades são enormes, e já não cabem mais cá dentro. Já não consigo suportar as lágrimas como antes, não consigo mais suportar pensar em tudo, pensar que não vos posso abraçar, que o tempo não volta atrás e, eu estou aqui, de coração estilhaçado no chão, e a alma rasgada. Fico me perguntando porquê, porquê que tinha que ser tudo assim, porquê que Deus me deu uma bagagem tão triste, e tão pesada para carregar, se eu sou tão pequenina? Se eu sou tão frágil? Sei que, Deus só dá pesos assim a pessoas que Ele sabe que conseguem ultrapassar, que conseguem sobreviver e viver apesar de tudo, eu sei disso, mas às vezes era desnecessário me dar tantos obstáculos e tantas dores. Eu estou a começar a ficar cansada, realmente cansada. Vó, o que eu faço? O que eu faço, quando já não consigo mais ser forte? O que eu faço se eu sinto tanto a tua falta, e preciso de ti, e dela?”
Sexta carta pra nova estrela, Redbird.
“Não sei como começar esta carta, acho que desta vez não sei o que dizer, sinceramente. Já são três anos que estamos sem ti, que eu estou sem ti, e agora está ela a sofrer e a caminho da tua beira. E, isso está-me a doer. A realidade dói-me, e acaba comigo. O meu coração parte-se sempre que a vejo daquele estado, e só peço a Deus para a poupar porque ela já sofreu tanto. E, peço-te a ti, que olhes por ela, e cuides dela. Porque, neste momento já não podemos fazer grande coisa por ela além de estar lá ao pé dela. 
Está tudo a desmoronar, de novo, e eu não sei o que fazer. Estou às aranhas, porque eu sei, eu sei que vou desabar junto com tudo. Vou voltar à escuridão, e ninguém vai perceber. Eu preciso de ti, e dela, eu preciso de vocês. E, no fundo, nem uma nem outra tenho. Sinto-me como um farrapo. Mas, no fundo, sempre me senti assim, só que hoje, sinto a quadruplicar. O meu coração está-se a partir, a ser esmurrado, a ser cortado e torturado, e eu não consigo nem sequer pensar direito como podes ver através desta carta. Estou sem reação, sem conseguir entender, sem conseguir descansar, sem conseguir nada. Só, dói. E, muito.”
Quinta carta pra nova estrela, Redbird.
“Estive a pensar se deveria escrever essa carta para ti. Não sabia se era boa ideia ou não. Mas agora não interessa. Eu preciso que vejas essa carta, e sintas os meus sentimentos como eu os estou a sentir.
Sinto a tua falta. Sinto demais a tua falta. Acho que hoje, esta ferida abriu de novo e está sangrando. Estou chorando passado tanto tempo. Estou sofrendo que nem há dois anos atrás. E, sabes? Eu espero que me estejas a abraçar. Porque eu preciso do teu conforto. Eu preciso de ti. Caramba, eu preciso de ti! Por mais que eu esteja conseguindo superar os obstáculos da minha vida, eu não sei suportar a dor de não te ter aqui. Fisicamente. Eu estou conseguindo, avó. Mas preciso de ti, preciso de ti aqui comigo.
Dói tanto. Dói demasiado, e eu, eu não sei o que fazer. Eu não sei. Tudo está tão à toa. Eu estou à toa. Eu preciso de forças, porque eu já esgotei as minhas.”
Quarta carta pra nova estrela, Redbird.
“Há dois anos atrás o céu ganhou mais uma estrela. A minha estrela.
Não sei como o tempo passou tão rápido, mas já estás aí em cima a olhar por mim há dois anos. Ainda não consigo acreditar, para ser sincera. Prefiro acreditar que simplesmente estás numa viagem, porque honestamente a verdade ainda me dói e ainda é cruel.
Sei que estás em paz apesar de tudo o que aqui se passa. Sei que me proteges, e que me dás forças. Sei que tentas ajudar, e que te custa ver isto tudo daí. Sei disso, e compreendo.
Fazes-me falta, sabes? É complicado ver certas coisas e saber que tu também fazias. É tão doloroso ver uma mulher idosa a sofrer, e lembrar-me de ti. É tão mau olhar simplesmente para o lado ou para uma imagem e ver-te a ti em vez da real pessoa. É como se a ferida abrisse de novo. E tu sabes bem o quanto eu sofri para chegar aonde estou hoje. Estou muito melhor, porém esta ferida não quer fechar-se. As saudades são fortes e grandes de mais para tal. E, eu não quero acreditar que já se passaram dois anos. Não quero, sabes? Porque apenas é difícil não te ver mais a sorrir, nem a chorar, nem a fazer as tuas coisas, nem a dormir, nem a brincar com o cão. São só lembranças agora.
Lamento, lamento se fiz algo que não gostaste, lamento se não te demonstrei mais o quanto eu te amava, lamento. Continua aí a olhar por mim, e, a dar-me forças. Eu agradeço. Afinal de contas és a minha estrelinha. És a minha avó.”
“Por meses que não me atrevi a escrever-te. Aliás, há meses que não escrevo. Não sei, mas começo a ter medo do meu próprio interior. Parece que algo está a bloquear tudo o que sinto, e assim tenho um vazio no meu peito que me sufoca. É estranho escrever-te, contar-te isto, apesar de saber que estás a observar-me constantemente. Nunca disse estas coisas a ninguém, muito menos a ti e ao resto da família. Todos pensam que os jovens são simplesmente jovens, não têm problemas e bláblá, mas não é bem assim. Muitos sofrem mais que muitos adultos alguma vez sofreram. Enfim, não vale a pena estar aqui a catalogar as diversas merdas que acontecem mas que estão todos tão cegos com ideais tão obscenos que nem enxergam a verdadeira realidade que está à frente deles. O ponto a que quero chegar é que eu por mais fria que fosse e seja, eu sinto. Sou inteiramente humana. E, por isso sangrei, sangro e sangrarei. Sou real, de carne e osso. Sinto, e demais! É curioso, quando me pedem lá em casa para meter a mesa, sabes o que acontece sempre? Em vez de pegar só em quatro pratos e quatro de tudo, pego sempre cinco porque estava tão habituada a ajudar-te que esqueço-me que já não estás aqui fisicamente.
Há momentos que duvido que realmente sofram pela tua ausência (sabes a quem me refiro), e por mais que esteja a pecar por dizer que nunca irei perdoá-los, só digo a verdade. Não se diz aquilo a alguém que sofreu mais por uma mãe em metade dos anos que ele tem. Não se faz, e não entendo como se pode culpar alguém que morreu pelas atitudes que não são dela! Isso revolta-me, revolta-me e não é pouco. Eu estou presa na tua morte caramba, e esta gente ainda diz estas coisas a um ser como tu? Desonram a tua memória, e a minha inteligência. Desculpa, é o teu aniversário e eu aqui a falar do que não devo. Desculpa. Deveria ouvir-te a dizer obrigada pelos parabéns através do telemóvel, saber e sentir que estás bem apesar dos 87 anos. Porém não irei ouvir-te, ouvir o teu choro, saber e sentir que estás bem. Não estás aqui. Dói tanto, avó. Não sei descrever, é um sentimento horrível. É como saber que não me estás a ver a ir para o último ano do secundário. Apesar de tudo eu consegui, estou a conseguir. E só queria ver a tua cara e o teu sorriso, ouvir-te e saber que ainda estarias naquela poltrona ao voltar no dia a seguir.
Vou sentir a tua falta para sempre.”
Parabéns pelos 87 anos, avó. 01/08/2014
“Hoje. Dia 24 de Dezembro. A única coisa boa deste dia sabes o quê é? O aniversário do meu ídolo. Nada mais. Nem mesmo o facto de ser véspera de natal. Porque, tu sabes, é o primeiro natal. E dói para caramba! Mesmo negando, e tentando fingir, eu não sei como controlar esta dor, nem sei como senti-la. Há meses que me ando preparando, e nem disso fui capaz. Sim, eu cada vez mais me sinto inútil e incapaz. Há um buraco no meu coração, que não fecha nem sara nem nada. Simplesmente sangra, e queima tudo por todos os sítios que passa. Nunca imaginei que ficasse assim, que esta dor fosse assim. Estive dois anos e meio a tentar imaginar, e quando chegou o dia inesperadamente, a minha imaginação não venceu. A realidade foi e é pior. Fazes tanta falta, que nem te passa pela cabeça! Eu sei, continuas dentro de cada um de nós e tudo mais, mas a tua presença era e é precisa. Não só por mim, mas pelo o avô, pai, madrinha e a minha mãe. Protege-nos. Como sempre. E faz com que ao menos sentenhamos que estás presente espiritualmente agora à noite. Precisamos disso. A nossa dor, a minha dor não pode vencer.”
“Hoje faz sete meses desde que estás aí em cima. E sou-te sincera, a dor continua aqui… Tal e qual como falei na carta do teu aniversário. As pessoas falam que temos que seguir em frente, e eu sei, sei que é preciso. Mas é uma dor constante. É um pensamento constante. É uma lembrança constante. É um remoinho dentro de mim constante. Nada me parece bonito agora. Tudo está cinzento, como o tempo de hoje. Acho que sem ti, sem a tua presença na nossa vida em carne e osso, está a dificultar a minha visão para o mundo. Sim, eu aprendi muito com isto. Abri os olhos em relação a muita coisa. Mas a cor desvaneceu-se. E a dor tomou forma, e cor negra. Esforço-me todos os dias para acordar e me levantar. Vestir roupas bonitas e estar o mais apresentável possível. Sorrir e rir. Falar e sair para a escola. Concentrar-me nas aulas e estudar para os testes. (…) Mas a minha vontade, sabes qual é? Sim tu sabes. A minha vontade é ficar a hibernar o dia todo, estar de pijama e quentinha. Levantar-me só para comer, e ir à casa de banho. Mais nada. Porque dormir é a melhor coisa para a dor se amnesiar e as lembranças não esvoaçarem pela minha mente. Mente essa que está desfigurada, rasgada, vazia e só parada no tempo. Tenho plena consciência que não é isso que querias que acontecesse. Só querias e queres que eu esteja bem. E o resto de nós. Mas a nossa dor, a dor de seres uma estrela, está demasiado intensificada, demasiado grande e forte. Para mim, aquele dia Avó, é o dia que mais me marcou. Que mais me machucou. Por mais que eu sempre tenha sido fria nos sentimentos por todos, tu sabes o quanto eu te amava e amo. Desculpa… Estou a chorar, novamente. É difícil falar disto, falar de tudo o que sinto. É como se estivessem a pôr-me a nu. Ou a analisar cada traço meu. Só quero que continues a cuidar de nós, e que saibas o quanto sentimos a tua falta… O quanto eu sinto a tua falta.”
2 de novembro, terceira carta pra nova estrela.
“Hoje fazias oitenta e seis anos. E dói, dói dizer “fazias” porque eu cresci contigo, eu tive quinze anos, onze meses e catorze dias contigo, e viver sem ti é mais complicado do que eu imaginei. Há quem diga para ocupar-me, para assim não pensar, mas nem sempre é fácil. Ocupar-me eu até me ocupo, mas as memórias, tudo, estão ali na minha mente. E flutuam por lá, enquanto me aparecem coisas ou dizem simplesmente uma palavra. Há também quem diga para esquecer, mas como podem dizer sequer isso? Tu fazias parte da minha vida, e fazes mesmo não estando cá. Ontem fui ao teu túmulo, e doeu olhar para a data de nascimento, pois é hoje. Tive mesmo para chorar, para me lagar em lágrimas ali mesmo. Agarrada à tua foto, e à tua nova casa. Mas de certa forma, tu evitas-te isso. É complicado ver o avô choramingar por ser o dia que é. Como também é complicado lembrar-me que não vou ouvir a tua voz ao telefone a agradecer pelo feliz aniversário e a choramingar. E com isso vem também a memória do dia em que partiste, aquela chamada do pai, aquela dor a percorrer o meu corpo como se fosse um tumor maligno. A imagem de ver-te deitada no caixão ainda hoje me percorre os olhos. E a mesma dor latejando pelo meu corpo, e as lágrimas pesadas a caírem-me pelo rosto abaixo como se não houvesse amanhã. Tenho imensas saudades tuas, apenas isso ou tudo isso. E espero que cuides de nós, como sempre o fizeste.”
Feliz aniversário, Avó.
“Hoje, às 12:57, fez precisamente 1 mês que partiste, e eu ainda não consigo acreditar. Custa-me olhar pra aquela cadeira onde costumavas estar pra almoçar e jantar, pro sofá onde passavas as tardes, o sofá onde te deitavas antes de ires dormir, pra a cama onde costumavas dormir com o avô; custa-me não ouvir a tua voz, não ouvir a tua gargalhada, não me rir das tuas piadas e das tuas asneiras, não olhar pra os teus olhos cheios de lágrimas, não ouvir as tuas lamurias, … simplesmente me custa não te ter aqui. Quando estou sozinha, parece que tudo me vem à cabeça, e fico ali a remoer e a remoer, e por vezes as lágrimas são mais fortes que eu e escorregam pela minha face. Eu sei, eu sei que agora és uma estrela que estás a olhar pra nós, e igualmente um anjo, mas eu queria-te aqui, nós queríamos-te aqui. Dói-me ver o avô a choramingar por todos os lados e não poder retirar-lhe a dor, dói-me não poder fazer isso a nenhum deles, porque isso ainda aumenta mais a minha dor. É impossível esquecer-me de ti, é impossível evitar lembrar-me de ti quando eu cresci contigo. (…) As palavras sempre serão escasas pra aquilo que eu sentia por ti, e agora sinto com a tua falta. Porque, palavras não refletem a profundidade dos sentimentos. Apenas, sinto a tua falta. E, muito.”
2 de maio, segunda carta pra nova estrela.
“Hoje, é particularmente difícil enfrentar a noite. Aliás, a partir de agora vai ser difícil, muito difícil. Porque me vou lembrar de ti, vou-me lembrar que agora és uma estrela no céu a olhar por nós. E, dói. Nunca fui muito boa a exprimir-me, quer a contar coisas, quer a dizer o que sinto. Nunca dominei muito bem as palavras. E tu, como toda a gente, sabias. Só que mesmo assim não me abandonas-te. Não sei o que vai ser de nós, de mim, dos nossos dias, dos nossos domingos, sem ti, sem as tuas respostas, sem o teu choro… Vai ser complicado. Porque, independentemente de tudo, tudo girava à tua volta. E, vai continuar a girar, apesar de agora não estares presente, só em espírito.
Todos estamos fracos demais, pra enfrentar esta tua ausência. E, todos temos que ser fortes. Engraçado, né? É um contraste, clichê. Mas, verdade pura. Sabes, eu orei pra que isto não acontecesse, não agora, não quando eu já estava fraca e louca. Mas nem sempre as coisas acontecem como nós queremos, e tu partis-te, pra agora seres uma estrela lá no céu. (…)
Tu sabes, eu sei. E, só espero que estejas a olhar por nós, porque precisamos disso. Eu preciso de acreditar nisso.”
2 de abril, uma carta pra nova estrela.
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